A relação entre o material e o imaterial através da música

//A relação entre o material e o imaterial através da música

Há algo subjetivo, aquilo que não se explica, mas é. Muitas são as formas de buscar traduzir o indizível, e na música (como já vimos anteriormente sobre sua característica abstrata) existe a tentativa de explicá-la a partir dos sons emitidos. Na Grécia Antiga, por exemplo, havia disposições intervalares das notas em que cada determinada sequência (ou escala musical) era usada num ritual distinto[1]; na Idade Média, o canto gregoriano nos mosteiros, com sua música essencialmente a capella[2], remetia ao silêncio e esvaziamento de si; já na Renascença, o anseio em alcançar os céus pode ser observado na polifonia[3] das vozes agudas em junção com a representação terrena nas vozes dos baixos e tenores. Conclui-se, nesses exemplos, que a música teria como um de seus propósitos a tarefa de unir os mundos: essa realidade imaterial pulsante, à matéria palpável de nosso universo.

Música da Alma

Em pleno século XXI, muitos embates e debates se estabeleceram até aqui; um deles é a secção das diferentes vertentes musicais e a busca por novas denominações dos estilos (música popular vs. música clássica, a exemplo). E nessa defesa ou crítica perde-se, muitas vezes, o sentido que nos motiva a cantar, tocar, ou simplesmente conectar seu fone ao seu smartphone e ouvir aquela música que, independentemente de onde a enquadraram, move algo em você – e nesse ponto, mesmo o fato de a língua cantada ser incompreensível ou a música ser instrumental, não haveria aí um obstá-lo àquilo a que ela se presta: a comunhão.

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[1] Ver sobre Modos Gregos

[2] Termo designado ao canto sem o acompanhamento de instrumento

[3] Combinação simultânea de várias melodias

Observar uma pequena formiga, carregando algo mais de 100 vezes maior do que ela mesma, coloca-nos diante dos mistérios desta existência em que contemplar nos silencia, e, em meio a esse silêncio, um diálogo entre você e o indizível acontece, e a necessidade de expressar o que se passa internamente se dá de forma natural, após sentirmos fazer parte de um todo comum. E é nessa comunicação, entre a coisa contemplada e o indivíduo que contempla, que composições como Planeta Água (interpretada por Guilherme Arantes) se dão e traduzem-se como louvor.

Cabe a reflexão: música, a que veio? E ao ouvinte: porque estou ouvindo?

Música da Alma

A música tem veiculado sobre vários propósitos: desenvolvimento da inteligência cognitiva, auxílio terapêutico, melhoria da saúde, sociabilidade, etc. Nenhum desses atrativos a ela em nada a desmerecem, nem mesmo o simples prazer em ouvir algo o seria, muito pelo contrário. Mas, assim como todos os seus benefícios nos agregam, deveríamos agregar a ela, em algum momento, o trilhar da ponte que a música proporciona entre os mundos – saindo da matéria, e indo ao encontro do desconhecido através do som.

 

Poem of the Atoms, composta por Armand Amar sob um poema de Rumi, é a indicação a este exercício.

https://www.youtube.com/watch?v=xKAFFqthFzk&t=18s

Por Rose Dália Carlos

Mestranda em Performance Musical pela Universidade Federal de Goiás

2019-02-27T12:18:00+00:001, mar 2019|Música da Alma|