Timbre

O som é composto de uma gama de matizes, a ponto de podermos observá-lo como um pintor observa sua paleta de cores, escolhendo aquela cor que acha mais apropriada para algo que almeja transmitir. Na música, esse aspecto de nuance é classificado como timbre.

A partir do séc. XIX o timbre foi conquistando maior reconhecimento e espaço, a ponto de compositores como Claude Debussy (1862-1918) utilizarem a cor, como veremos adiante, como “elemento essencial”: o que ocasionaria a escolha de determinados acordes[1], a priori, pelo seu timbre, não necessariamente pela sua função tonal[2] como comumente acontecia até então. Mas, afinal, o que é o timbre?

Música da Alma

O timbre, em seu sentido mais puro, precede à música. Seu aspecto primordial relaciona-se à percepção humana dos diferentes sons existentes no cotidiano, assim como na natureza[3]; o farfalhar das asas dos pássaros, que é diferente do som do estalar da madeira quando queimando e do borbulhar das águas, assim como do ruído do vento, etc. O timbre, assim, seria o que os músicos chamam de “cor”, em música. Não a cor que conhecemos pelo sentido da visão, mas aquilo que distinguiria um som de outro[4]: sua qualidade intrínseca, sua capacidade de atrair ou repulsar, sua profundidade.

Agora, a anexação tímbrica à música ocidental remonta à Grécia Antiga, percebida a partir da existência do segundo harmônico[5]. O timbre veio, ainda, a se deslocar dos moldes que o ligavam somente à cor (um parâmetro do som) como já vimos acima, possibilitando seu avanço a uma provável emancipação:

É o rompimento com sua “pureza paramétrica”, que caracteriza sua concepção tradicional, que permite o uso do timbre de forma afetiva, e somente por isso ele pode sair de sua neutralidade como parâmetro sonoro para, de fato, ganhar status e uso como material musical. (MARTINELLI, 2016, p. 61)

Com esse caráter emotivo que o timbre passou a denotar, aos poucos se foi discernindo a qualidade sonora do que se ouvia por metálico ou aveludado, doce ou pungente, cristalino ou escuro, agressivo ou acolhedor. Isso se deu devido às necessidades que o lirismo poético passou a exigir com a repercussão da música programática[6] a partir de L. V. Beethoven[7](1770-1827), em que “com ela é atribuída uma nova função ao timbre instrumental e novas atmosferas sonoras surgem em decorrência do caráter descritivo dessa música, com referências evocativas a dados extramusicais” (ASSIS, 1997, p. 15).

O que foi encontrado a respeito do timbre até então, leva-nos a constatar quanto ainda hoje se faz escasso um material que possibilitaria desanuviar sua, até então, nebulosa definição: mesmo após tamanha proporção alcançada no séc. XX. Agora, o que podemos, ao menos, é entregar-nos à apreciação sonora de uma das obras para piano que mais repercutiram o pensamento a respeito do timbre na era moderna, e que nos faz perceber quanto a cor, que repercute dos elementos sonoros, é capaz de despertar em nós a reflexão e a quietude: de Claude Debussy, sugerimos a audição da peça Clair de Lune (1903).


Por Rose Dália Carlos

Mestranda em Performance Musical pela Universidade Federal de Goiás

 

Música da Alma

[1] Sequência de duas ou mais notas musicais verticais – podendo ocorrer simultaneamente ou não.

[2] Função tonal, em síntese, é a explicação da ocorrência de determinados acordes em uma música de acordo com a harmonia tonal – para melhor aprofundar o assunto, cabe uma leitura sobre harmonia tonal, recomendamos o Dicionário Grove de Música, editado por Stanley Sadie.

[3]O compositor vanguardista finlandês Magnus Lindberg, inclusive, compôs sua obra Action-Situation-Signification (1982), cujas partes são: Terra 1, O mar, Interlúdio: madeira, Chuva, Interlúdio: metal, Fogo, Vento e Terra 2, onde “cada um dos elementos é tratado musicalmente com as mesmas características como se apresenta na natureza” (ZAGONEL, 2007, p. 5).

[4] Para uma compreensão inicial, podemos dizer do fato de conseguirmos distinguir vozes de um mesmo registro e alcance (soprano, por exemplo), mas que soam claramente diferentes (de pessoas distintas): pelo seu timbre (cor).

[5]  Ver sobre a sequência harmônica de acordo com a Física.

[6] Música instrumental guiada por um poema, texto, imagem, etc. que atuam como pano de fundo para a representação musical.

[7] Sua Sinfonia Pastoral (1808) que suscitou esta tendência nos séculos subsequentes (ASSIS, 1997, p. 15).

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Referências:

ASSIS, Ana Cláudia de. O Timbre em Ilhas e Savanas de Almeida Prado: Uma Contribuição às Práticas Interpretativas. 1997. 177 f. Dissertação (Mestrado em Música Brasileira) – Centro de Letras e Artes da UNI-RIO, Rio de Janeiro, 1997.

DUBNOV, Shlomo. Título: Polyspectral Analysis of Musical Timbre. 1996. 91 páginas. Tese – Senate of the Hebrew University. Jerusalém, Israel; 1996.

GRIFFITHS, Paul. A Música Moderna: Uma História Concisa e Ilustrada de Debussy a Boulez. 2a Edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011. 206 páginas.

MARTINELLI, Leonardo. O som como drama: a legitimação estética do timbre pela música contemporânea. Anais do SEFiM – Revista interdisciplinar de Música, Filosofia e Educação, Porto Alegre – RS, V. 2, n. 2, p. 57 – 73, 2016.

MED, Bohumil. Teoria da Música. 4ª Edição. Brasília, DF: Musimed, 1996. 420 páginas.