No último dia 29 de junho, o grupo jovem de Goiânia – Brasil foi conhecer pessoalmente um trabalho de incentivo às crianças e jovens de regiões carentes em Aparecida de Goiânia, Goiás. O Ensino Coletivo de Violões no Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata funciona desde o início deste ano, e, Yara Ferreira, uma das coordenadoras do projeto no bairro Jardim Cascata, conta-nos um pouco de como se deu essa trajetória.

Campanha da Juventude pela Paz: O Posto de Auxílio Cascata de Luz já existia e, agora, ampliou-se com as aulas de violão. Como se deu essa trajetória?

Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata Yara Ferreira: Sim. Este trabalho de assistência já existe há trinta anos no bairro Jardim Cascata, sendo que a sede se localiza no Setor Sudoeste, em Goiânia. Inicialmente, concentrava-se mais em servir a sopa e dar assistência à comunidade, com as cestas básicas. No decorrer do tempo, foram surgindo pessoas que se interessaram em colaborar. Ampliamos para ofertar reforço escolar às crianças e adolescentes, alfabetização de adultos, assistência odontológica, médica, farmacêutica, aulas de judô, de dança e crochê, curso de corte e costura,  de informática, biblioteca, enfim, várias atividades. Por um acaso, comecei a frequentar aqui. Eu queria ser útil de alguma forma, e não sou da área da música, mas é algo que amo, que adotei como meu hobby. E, o pouco que sabia, queria ensinar a alguém. Há três anos, algumas crianças haviam ganhado violões de presente de natal, e, por não haver ninguém para ensiná-las a tocar, dispus-me a ensinar o pouco que eu sabia a essas crianças. Assim, fiquei dois anos dando aulas individuais. Mas, à medida que o tempo passava, mais crianças apareciam querendo ter aulas de violão. Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata Não fui conseguindo conciliar isso em aulas coletivas, pois o nível de cada aluno era distinto – uns rendiam mais, outros menos. Logo, eu seguia dando aula, individualmente, aos alunos com maior dificuldade, e fiz um grupo de três alunos com os mais avançados. E nesse período, conheci o professor Fábio Amaral, e o convidei para vir auxiliar no projeto. Ao lançar uma foto no Instagram, com uma chamada para o ensino de violão coletivo, recebi várias mensagens de pessoas ofertando doações de violões e dinheiro para o projeto, sem que eu pedisse. De início, conseguimos quinze violões, e íamos juntando dinheiro para comprar mais. Hoje, contamos com vinte e cinco violões. Logo, aquela lista gigante de alunos querendo ter aulas de violão, hoje, está vazia: não temos nenhum aluno sem acesso às aulas.

CJP: Então, o ensino de violão no Projeto Amparo, agora está com uma turma fixa?

YF: Sim. Cada aluno tem o seu violão. E eles levam para casa para estudar. Uma de nossas alunas mais antigas é a Emily Luiza. Num percurso de quase três anos, hoje, a Emily consegue tocar qualquer coisa, pois é uma aluna muito aplicada. Com a aderência do professor Fábio Amaral (que é mestre em música pela Universidade Federal de Goiás), a Glauce, também, interessou-se em participar, pois seu projeto de TCC no IFG será sobre o ensino de violão coletivo: ela veio para fazer um estudo de caso, com o Fábio, e gostou tanto do projeto que quis ficar, e tem colaborado em outras funções aqui também, não somente como professora. O ensino coletivo de violões, como se encontra hoje, iniciou-se em março deste ano. Com o quantitativo de vinte e cinco alunos e três professores. O Fábio faz parte de outros projetos de ensino coletivo de violão, mais antigos e avançados – nestes outros grupos, os alunos já fazem solos e leem partitura. Os alunos aqui do Amparo não sabiam nem pegar no violão, no início deste ano, e, agora, já estamos ensaiando Brasileirinho para tocar no final deste ano.

Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata

CJP: E como tem sido o desenvolvimento pessoal e de aprendizado dos alunos no projeto?

Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata YR: Neste mês (junho, 2019) iniciamos o ensino da partitura, de forma bem lúdica. Visto que cada um desenvolve-se de forma diferente. E a grande maioria não possui o instrumento, por serem de famílias bem carentes. Assim, desenvolvemos uma forma de empréstimo dos violões, para que os alunos possam levar os violões do Amparo, para estudar em casa, visando seu desenvolvimento e aprendizado do instrumento. Nós codificamos os instrumentos e fizemos um termo de compromisso onde as próprias crianças assinam, dispondo-se a cuidar do instrumento e devolvê-lo na data certa. Os alunos também se comprometem a estudar os exercícios em casa, e caso não estejam estudando por algum motivo, pedimos que devolvam o violão para que uma outra criança possa estudar. Visamos, com isso, trazer o senso de responsabilidade para com o estudo e com o próprio instrumento, que é um patrimônio de todos. A indisciplina ainda é uma das características dessas crianças mas, no ensino da música, estamos ensinando a manter o silêncio enquanto o grupo musical toca. A realidade delas é diferente: devido ao que elas têm acesso, pediam-nos para aprender a tocar músicas com contextos que nada ensinavam. Nós fizemos uma reunião com elas, e explicamos o que significava a letra das músicas que queriam aprender, e pedimos que nos trouxessem outras músicas; ao mesmo tempo, íamos sugerindo algumas. Nosso trabalho, assim, é de abranger o conhecimento musical do ponto de vista estilístico também. Afinal, que dia o pai ou a mãe dessas crianças colocaria uma música de Waldir Azevedo (compositor de Brasileirinho) para eles escutarem? Então, ao invés de explicarmos o que é música clássica ou a clássica MPB, nós primeiro lhes ensinamos tocar a música de forma divertida para, num futuro, explicarmos o que realmente é a música que elas estão tocando, em qual contexto surgiu e o que significa para a sociedade.

CJP: Que maravilha, Yara. E quantas horas de aula essas crianças recebem por semana? E como são divididos os alunos?

Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata

YF: Elas vêm somente aos sábados. Das 16h30 às 17h30 são as aulas coletivas para os alunos iniciantes onde os avançados também participam, estudando alguma coisa mais difícil ou até revisando o conteúdo da aula anterior. Das 17h30 às 18h, ficamos somente com os alunos avançados. Ter os alunos mais adiantados junto aos alunos iniciantes é também, uma forma de incentivo, pois, as crianças tendem a ver nós, professores, de forma muito distante. Ao ver um coleguinha que começou como eles, que é daqui e que agora está tocando bem, é de uma grande identificação, o que auxilia no estímulo dessas crianças que veem no coleguinha do bairro vizinho um exemplo a ser seguido.

CJP: E quando vocês planejam apresentar as músicas ao público?

YF: O Fábio, nos outros projetos, sempre faz um grande recital anual, ao final do ano letivo. Planejamos fazer o mesmo aqui.

Fábio Amaral: Nós planejamos executar em torno de quinze músicas no fechamento das atividades do ano de 2019, em dezembro. O grupo, assim, apresenta em torno de 20 a 25 minutos de música.

Projeto Orquestra de Violões – Música no Cascata

Nós também conversamos com a adolescente Emily Luiza, a aluna que Yara disse estar desde o início, quando o projeto não vislumbrava ter a quantidade de alunos que tem hoje. Emily salienta que estuda todos os dias, que o violão tem-se tornado uma de suas paixões. Ela começou a tocar no violão da escola, e, ao ganhar o instrumento de presente de natal, há dois anos, a pedido dela, vem desenvolvendo-se exponencialmente: “Emily é uma aluna aplicada e tem facilidade no aprendizado da música”, afirma Yara. Emily, por sua vez, afirma que uma das coisas que mais tem gostado é que hoje ela tem aprendido a apreciar música, não mais como entretenimento, mas agora discerne estilos, sabe o que é um solo, o que é uma música de maior nível de dificuldade, e deixa um recado para os novatos: “aprender a ler partitura é como aprender a ler mesmo; no início é muito difícil, mas com o tempo vai ficando mais tranquilo”.

Os contatos para acompanhar o projeto, e até para interessados em colaborar ou participar, seguem abaixo.

Instagram: postocascatadeluz

Yara Ferreira: (62) 98221-8183