Paisagem

Não mais querendo viver o que lhe estava destinado, Saki, o jovem príncipe, pediu permissão ao pai para partir em viagem rumo a outras terras.

Tomado de profundo desgosto, mas sabendo que não podia negar tal pedido, o Rei entregou a Saki três presentes: um cavalo, um manto e uma pequena tesoura. Mesmo não compreendendo o motivo do último presente, Saki aceitou os três, pois não queria contrariar ainda mais o velho soberano. E partiu.

Atravessou as fronteiras do reino e andou por trilhas desconhecidas. O manto que recebera do pai o protegia do frio da noite, e o cavalo levava-o agilmente pelos caminhos. Entretanto, a tesoura para nada lhe servia.

Depois de muito viajar, cruzar aldeias, rios e vales, Saki encontrou-se diante de uma grande montanha e, no meio do bosque que a recobria, distinguiu uma estreita trilha que o conduziria ao seu topo.

Cosmos

Velozmente penetrou por ela. Entretanto, antes de alcançar o primeiro patamar de pedra, a meia altura do trajeto, seu cavalo quebrou a pata e Saki teve de continuar a pé.

Sem desanimar, prosseguiu por aquela estreita trilha. Já não se lembrava do reino que deixara, nem das experiências que vivenciara em sua viagem. Só queria chegar ao alto da montanha, e essa meta, sem que ele percebesse, havia tomado toda a sua atenção.

Quando havia percorrido dois terços do trajeto, veio uma forte tempestade, provocando o desmoronamento de uma parte daquela trilha e arremessando para longe o manto que Saki recebera do pai. Sem poder retornar, restava-lhe somente a opção de seguir em frente, e, mesmo abatido pelos acontecimentos, continuou seu percurso.

Subindo, e chegando ao ponto que lhe parecia final, viu que não se encontrava na parte mais elevada da montanha. Havia ainda um trecho bem mais íngreme a ser escalado, que não podia ser avistado senão daquele elevado plano que conseguira atingir.

Mesmo cansado, prosseguiu.

Pedra por pedra, passo a passo, Saki foi escalando a escarpada encosta. Nem o frio nem a fome faziam-no recuar. Já a três passos do destino encontrou uma víbora, pronta para atacá-lo. Assustando-se, o jovem escorregou e ficou preso pela roupa em uma ponta de pedra. Agora não podia mover-se, e a víbora aproximava-se.

Enquanto a serpente enroscava-se, preparando-se para picá-lo, ele se lembrou da pequena tesoura que recebera do pai. Rapidamente cortou a própria veste, libertando-se, e de um salto alcançou o topo da montanha.

peregrinoPara sua surpresa, encontrou ali uma caverna, de cujo interior emanava uma claridade. Exausto, o jovem resolveu ir em direção àquela luz.

À medida que caminhava, a luz ia transformando-se na figura de um sábio ancião que vivera na corte de seu pai. Aproximando-se de Saki, tomou-o pelas mãos e lhe disse:

Nós vos aguardávamos. Chegastes.

Extraído do livro “Viagem por Mundos Sutis”, de José Trigueirinho Netto.