Música da Alma: E o que seria escutar, afinal?

//Música da Alma: E o que seria escutar, afinal?

Que a música é a mais abstrata das artes, em consenso, isso já foi constatado. Todo ser que se coloca a ouvir música, sendo de si seu próprio observador, compreenderá que o que estiver escutando há influenciar a atmosfera do ambiente; inclusive as moléculas de seu próprio corpo físico[1]. Muitos consideram como músicos apenas pessoas que se dedicam ao estudo da música: aqueles que trabalham a interpretação musical através da voz e de instrumentos, ou lecionam a escrita musical assim como algum instrumento o qual já dominam, enfim. Bem, mal sabem os leigos que o primeiro passo que realmente define um verdadeiro músico (aquele que, erroneamente é classificado como profissional, pois, afinal: um músico verdadeiro seria apenas alguém que recebe retorno financeiro para exercer a sua função?) é o simples ato de escutar. Como? Escutar.

Sintonia com Gongos

Ora, o ouvido é um órgão que é acariciado por outro dos nossos cinco sentidos: o tato. As ondas sonoras que viajam através da atmosfera, ao penetrarem as partes auriculares externas e serem transportadas através do tímpano, contatando as sensíveis partes do ouvido médio e interno, são traduzidas pelo nosso cérebro como sons e possuem tons calculados em decibéis, cuja percepção varia de acordo com cada ser da natureza. O valor do som e a função do nosso ouvido são de tal forma desprezados, que grande parcela da população se esquece de que é neste órgão que se encontra o nosso senso de equilíbrio.

Em nossa atual conjuntura ocidental globalizada, os demais sentidos têm sido pouco trabalhados em função da visão. Escutar (aqui, observar está intrínseco ao mesmo ato) tem se tornado cada dia uma ação mais rara. A música tem tomado caráter de entretenimento, e mesmo quando assumido um aspecto mais meditativo perante ela, pensa-se que apenas na vertente oriental são encontrados meios para isso; esquecendo-se do caráter universal, abrangente e infinito em que essa arte se expressa.

Falar de música e colocá-la no ponto em que ela se origina, da alma, leva-nos primeiramente à redescoberta do ato de escutar – ato este, em que não é necessário estar nos picos do Himalaia para praticá-lo: ele deve ser praticado em qualquer lugar que se estiver. Os sons como um todo merecem real atenção – eles são grandes mensageiros das nossas ações e pensamentos perante o mundo. Sem a redescoberta do som, o ouvido está de tal forma corrompido que não conseguirá discernir a música (com artigo definido, sim!).

Observe sua voz, o movimento dos pensamentos em sua mente. Escute o som das teclas quando digitar, do ruído do cooler de seu computador ligado. Dos pássaros na área externa, do cachorro latindo a cem metros. Do ponteiro do relógio marcando 15h e do móvel sendo arrastado na casa vizinha. Do movimento de seu coração e dos ruídos produzidos por seu estômago enquanto digere o almoço.

Silencie.

Jovens tocando violoncelo

Deixe que, enfim, a música o guie e ensine.

 

But oh, what art can teach,
What human voice can reach
The sacred organ’s praise?
Notes inspiring holy love,
Notes that wing their heav’nly ways
To join the choirs above.*

Por Rose Dália Carlos

Mestranda em Performance Musical pela Universidade Federal de Goiás

*Créditos e vídeo para a apreciação musical:

But Oh! What Art Can Teach (Aria do Soprano: Ode for Saint Cecilia’s Day, HWV 76)
Compositor: Georg Friedrich Händel
Maestro: Marc Minkowski,
Soprano: Lucy Crowe
Instrumentistas: Les Musiciens du Louvre Grenoble
Ano: 2009

[1] Atualmente há dados comprovadamente científicos que corroboram o que a intuição há muito propagava sobre este assunto. A quem interessar possa, Dr. Masaru Emoto realizou uma valiosa pesquisa sobre a influência da música através das moléculas de água.

2019-01-04T22:17:58+00:004, jan 2019|Música da Alma|